A Obsessão e o Livre Arbítrio – Parte II

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Nos artigos anteriores abordamos a possibilidade de os espíritos desencarnados permanecerem na Terra, entre os encarnados. Na oportunidade, discorremos sobre a incompatibilidade simétrica entre espírito e matéria. Alem disso, também afirmamos o controle exercido pelos espíritos instrutores sobre os deslocamentos até o polissistema material.

Em face dos argumentos anteriores, é de se perguntar: mas, as chamadas sessões de desobsessão tão frequentes nas casas espíritas, coordenadas por pessoas sérias e dedicadas à causa, não passaram de equívocos ou mentiras? Evidentemente, seria um despropósito generalizar tal afirmação. Acredito que na maioria dos casos, as sessões eram dirigidas com seriedade e bons propósitos.

Mas, então, o que ocorria nesses encontros?

O grande pesquisador e estudioso do espiritismo, Ernesto Bozzano, dedicou grande parte da sua vida intelectual à investigação dos chamados fenômenos paranormais. No intuito de debater com os opositores do espiritismo, reuniu vasto material sobre o tema. Com consistência e rigor investigativo, relatou inúmeros casos de manifestações verdadeiramente espíritas e outras tantas, não menos abundantes, de causa essencialmente anímica. Trabalhou os conceitos de ideoplastia e fotografia do pensamento. Nessas reflexões, relacionou inúmeros casos como resultantes de projeções mentais produzidas por pessoas encarnadas, ou na forma ideoplasmática, isto é, fruto de autosugestão capaz de produzir formas tangíveis, e até as formas fotografadas pela mente e registradas no ambiente terreno. Além do mais,somos capazes de “criar” formas mentais, com aspecto humano, e atribuirmos a essas formas “manifestações inteligentes” que, inclusive, passam a nos obsediar.

Algumas pessoas, em face de desequilíbrios mentais ou emocionais, alimentam sistematicamente essas criações, afirmando a sua presença como “encostos” que lhes ficam perturbando constantemente e, até, induzindo-as a praticar atos reprováveis. Pois bem, as famosas sessões de desobsessão trataram muitos desses “fantasmas”, através de supostas doutrinações de efeitos catárticos. Imbuídos de bons propósitos procuraram aliviar o sofrimento dessas supostas vítimas. Mas, mesmo assim, não passavam de projeções metais dessas próprias vítimas.

Isso nada tem de excepcional. Afinal, a invenção da fotografia nada mais foi do que a descoberta da possibilidade de registrarmos, numa película, imagens do cotidiano. Ora, o homem não inventa nada que já não exista, como possibilidade, na natureza. O que vemos com os nosso olhos são imagens de pessoas, coisas, situações, refletidas em nossa retina e reconstituídas em nosso cérebro, reproduzindo assim o ambiente externo. Ou seja, o que vemos são reflexos do que chamamos de realidade. E mais ainda, a reprodução dessas imagens em nossas mentes passam, necessariamente, pela mediação da cultura. Portanto, manifestam-se carregadas de mores, idiossincrasias, medos, transtornos, etc., construídos pela nossa forma de ver e compreender o mundo, ou seja, pelo status fundante da cultura em que vivemos.

Discorremos sobre a ideoplastia, a fotografia do pensamento, a impossibilidade de espíritos, após o desencarne, permanecerem na Terra, salvo com uma certa prontidão e autorização dos Orientadores. Assim, colocamos em questionamento a chamada obsessão. Com efeito, agora é necessário refletir sobre o livre-arbítrio.

Sabemos pelas chamadas Leis Morais que estamos sujeitos, dentre outras, à Lei de Liberdade. O livre arbítrio, pois, é um caso particular da lei. Dito de outra forma, o livre arbítrio é a Lei de Liberdade, que é universal, operada de forma individualizada, assim como nós somos o princípio inteligente individualizado.

No chamado estágio do espírito, ou seja, na fase homo sapiens, passamos a exercer a lei de liberdade pelo exercício da vontade, da escolha, das decisões arbitrárias, etc. Sendo indivíduos, dotados de uma singularidade irredutível, não poderia ser diferente. Afinal, em face dessa singularidade, ninguém vê, pensa, sente, reflete, da mesma forma sobre as mesmas coisas. O máximo que alcançamos são similitudes de pensamento, entendimento, etc. No entanto, apesar das diferenças individuais, reside em todos nós os fundamentos universais do que somos, ou seja, há uma unidade fundamental, substantiva, na diversidade dos seresO livre arbítrio, da mesma forma, é uma manifestação singularizada dessa substância que habita o mais profundo do ser do ser humano, que é o espírito. E o que é da substância não se altera, é o permanente que há em todos nós. Fomos criados com ela e por ela, por obra do Creador.

Assim, podemos afirmar que o livre arbítrio é indestrutível e irredutível. Mesmo que o indivíduo esteja encarcerado, tolhido na possibilidade de ir, vir, permanecer, ficar, o seu livre arbítrio permanece intacto. O que lhe é cerceado, temporariamente, é o exercício da liberdade. Mesmo privado da mobilidade física, não perde a identidade consigo mesmo, a capacidade de afirmar, permanentemente, “eu sempre serei eu”.

Portanto, admitir que alguém, encarnado ou desencarnado, possa exercer um controle absoluto sobre nossa vontade, é aceitar o fatalismo da anulação do livre arbítrio. É afirmar a possibilidade de que algumas inteligências são capazes de acessar a substância de terceiros e manipulá-la a seu bel-prazer. É, no limite, igualá-los ao próprio Creador, o que seria, no mínimo, um tremendo absurdo.

O que é da substância não se altera. O que se transforma permanentemente é a nossa compreensão dessa substânciaNa medida em que passamos pela experiência existencial nos dois polissistemas, alteramos o nosso possível e, portanto, fazemos sempre um segundo olhar sobre a natureza substantiva do ser do ser humano. Nesse processo, pelo alongamento do olhar, essencializamo-nos singularizamo-nos.

Como o próprio Kardec afirma, “Não há …arrastamento irresistível, uma vez que se tenha a vontade de resistir”.

Diante das controvérsias que os textos anteriores podem ter provocado, é preciso tecer algumas considerações a respeito.

Em primeiro lugar, precisamos reafirmar que a mentalidade vigente em cada época constitui-se na base que sustenta o produto mediúnico. Os espíritos manifestantes utilizam-se do background do médium, que compõe a sua história de vida, portanto, a cultura e seus símbolos que são significantes e dão significado à existência dos indivíduos na Terra.

Assim, em cada época, o sistema de crenças, as idiossincrasias, os sentimentos interativos e predisponentes da cultura interagem com as inteligências do polissistema espiritual e produzem um resultado integrado a contemporaneidade da Terra.

Portantoquando Kardec constituiu a chamada Codificação da Doutrina Espírita não ficou imune ao contexto de seus contemporâneosA linguagem e seus símbolos submetem-se aos parâmetros e protocolos de cada temporalidade. Não poderia ser diferente, do contrário, o entendimento das mensagens tornar-se-ia praticamente insondável.

Com efeito, quando afirmamos que há uma incompatibilidade de frequência entre o espírito desencarnado e o polissistema material e que, portanto, os espíritos aqui não permanecem a seu bel-prazer; por conseguinte, a existência de espíritos malévolos que perturbam as pessoas é fato improvável; além disso, obsessão e livre arbítrio não podem se coadunar, pois um é a negação do outro. Como a ninguém é dado o poder de anular o livre arbítrio de terceiros, não há possibilidade de submeter-se a quem quer que seja a situações irresistíveis.

Será, então, que Kardec se equivocou quando dedicou inúmeras páginas para afirmar o contrário do que estamos dizendo? Afirmo categoricamente que não.

Os símbolos, signos e significados que operamos em cada época traduzem a maneira como vemos o mundo, os outros e nós mesmosPortanto, não se trata de equívoco, mas de uma compreensão possível em face dos paradigmas da inteligência, da contingência e da cultura de cada época. Quando esse possível se altera pelo concurso da experiência existencial humana, nosso olhar se alonga e, assim, vemos melhor o que víamos antes.

Portanto, é imprescindível a permanente crítica do discurso espírita, para permitirmos a permanente recontextualização dos conteúdos fundamentais da Doutrina. Isso não significa negarmos o que foi alcançado antes, mas apenas a atualização interpretativa dos fundamentos doutrinários, pois todo o entendimento alcançado é sempre temporal.

O magistério espírita sustenta-se na falibilidade do espírito. Não significa dizer que ser falível é equivocar-se, mas sim estar sempre diante da transformação permanente da realidade, que nos desafia a fazermos, sempre, o segundo olhar sobre o conhecido, para alongarmos o olhar para o desconhecido. Isso vale, também, para Kardec.

Fonte: Rui Simon Paz. Sociólogo, professor acadêmico na Faculdade Doutor Leocádio Correia e coordenador de grupos de estudos espíritas.

 

 

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