Disciplina do pensamento

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Um dos problemas capitais é o da lucidez. De certo modo, é da natureza da mente se concentrar, pois quando estamos com a mente dispersa não quer dizer propriamente que ela não está concentrada, e sim que se concentra palidamente em muitos objetos, que é capturada por um fluxo incessante de imagens, ideias, vagando perdidamente nesse fluxo. Assim é uma concentração sem controle.

Portanto, é necessário dirigir o pensamento, aprender a controlar o foco da mente, a sua natural disposição de se concentrar, bem como dilatar as suas possibilidades. Com tal controle se conquista a uniformidade do pensamento.

O mundo exterior determina uma infinidade de estímulos, que por sua vez determinam sensações e imagens. Nosso aparato físico, com toda a sua estrutura sensitiva, nos mantém invariavelmente imersos e ligado ao meio exterior. Todo o fluxo do mundo exterior é estranho a nós, não depende de nós, tem a sua vitalidade e se impõem pela sua própria dinâmica.

Entretanto, no tocante à disciplina do pensamento, à regência do foco mental e do exercício de concentração, tudo isto está dependente de uma das mais importantes faculdades do Espírito: a vontade. É pela vontade que dirigimos todas as faculdades do Espírito e, mediante seu desenvolvimento progressivo, estabelecemos seu império, sua autonomia em face da infinidade de estímulos estranhos.

Desse modo, a vontade não se define por um mero querer, ou por um desejo, mas é antes uma potência de ação, uma capacidade de agir segundo os fins da razão. Mesmo quando tudo em nós se inclina para a desforra, para a raiva, para o ódio, para a inércia, ainda há a possibilidade de nos contrapormos a todos esses impulsos inferiores que podem determinar o nosso comportamento. Assim, o nosso querer pode estar determinado por objetos inferiores, mas a vontade pode interditar a inclinação e determinar o comportamento segundo os fins da razão.

Na terminologia de Kant, a vontade é determinada pela razão prática. Por isso a vontade se define melhor como uma potência de ação do que um mero querer, inclinação ou desejo. A vontade em exercício é aplicação dos princípios práticos (éticos) da razão, fora disso o comportamento humano é determinado pelos estímulos exteriores, a causa da ação está fora do sujeito, e nisso não há liberdade, não há autonomia e, consideramos, também não há a lucidez. Os fatores psicológicos, como desejos, traumas, carências, e toda a trama da vida psicológica, também são entendidos como “fora do sujeito”, porque definitivamente quando se trata da razão prática, não se refere ao sujeito empírico, e portanto psicológico, elaborado numa grande trama de experiências, mas se refere tão somente ao sujeito cognoscente, a estrutura a priori acima da vida psicológica, donde dimana também os princípios éticos a priori que devem ordenar o comportamento no seio da experiência. A razão prática pode ser entendida como o “senso moral” abordado pela literatura espírita na análise dos problemas éticos. Como esclarece Kardec, o senso moral, ao longo do processo evolutivo, amadurece, ganha preponderância gradativa na vida interior, tendo por destino ordenar todas as nuances do comportamento, através do exercício esclarecido da vontade.

Desse modo, considerando que a consciência encerra os princípios éticos universais, as leis divinas, tal como consta no Livro dos Espíritos, podemos verificar certas semelhanças entre o conceito de razão prática, na filosofia de Immanuel Kant, e o conceito de consciência como “o guardião da probidade interior”, exposado pela Doutrina Espírita. Ambos os conceitos designam a origem dos princípios éticos e, portanto, dos deveres que desses decorrem, estando na própria dinâmica da subjetividade humana, inerentes a estrutura da consciência. Entretanto, isso não significa que a ética que se fundamenta nos princípios da consciência seja uma ética subjetivista, no sentido de relativa e dependente das concepções, opiniões, inclinações e conveniências de cada indivíduo. Absolutamente não.

Quando os Espíritos assinalam que as leis divinas constam na consciência de cada indivíduo, esse conjunto de princípios éticos é comum a todos os homens, independente da cultura e dos processos históricos; são princípios constituintes da subjetividade humana, e não frutos da atividade dessa subjetividade, portanto são objetivos e estão acima dos desejos, dos gostos, das opiniões e de todos os fatores próprios da vida psicológica de cada um.
Desse modo, buscar dirigir a si mesmo, lutar pela sua própria autonomia, não significa se deixar levar pelos próprios caprichos, se tornar rebelde a qualquer autoridade e extravasar todos os impulsos que exigirem satisfação – está é uma concepção frouxa da contemporaneidade acerca do que seria a tão aclamada liberdade individual.

Na verdade, o exercício da autonomia requer muito trabalho, um grande dispêndio de energia, pois isto significa lutar por determinar o comportamento segundo os imperativos da instância superior da consciência, onde se revela os princípios éticos universais para todos. E tal processo é uma luta porque praticamente tudo em nós é contrário aos imperativos da consciência, as inclinações e hábitos que possuímos são forças opostas aos deveres que a consciência nos apresenta, podendo resolver essa batalha moral apenas a educação da vontade.

Atualmente as éticas relativistas e individualistas trabalham precisamente no caminho oposto ao cultivo da lucidez, porque priorizam a euforia, o embasbacamento e a satisfação imediata das torrentes de caprichos, sonhos, impulsos que brotam sem cessar da vida psicológica dos indivíduos, intensificando as más inclinações, como designa Kardec, ao mesmo tempo que abafando consideravelmente os imperativos salutares da consciência, que convida o indivíduo a ponderar os verdadeiros valores existenciais e a pelejar pela sua própria transformação moral.

Por isso nossa civilização é deliberadamente (para não dizer alucinadamente) anti-consciencial, quase todos os seus esforços por felicidade e estabilidade redundam no sepultamento da consciência. Um dos desastres sociais está na raiz ideológica da concepção de felicidade, que vincula esta ideia necessariamente à satisfação dos sentidos, ao entretenimento, à exaltação narcisista da personalidade, aos valores convencionais da sociedade. Ao mundo contemporâneo é algo muito estranho dizer sobre a satisfação da consciência na realização dos seus deveres, no cultivo da lucidez – que é o pensamento se compenetrando da instância superior da consciência. Parece algo antiquado, como se isto, no passado, já fora exaustivamente perseguido como um efetivo desígnio superior da existência e, mais ainda, como se as benesses de um estado de consciência mais lúcido e mais emancipado já fora efetivamente conquistado e experimentado longamente no passado.

De qualquer forma, é somente na realização moral da criatura que um estado perene de bem-aventurança pode ser conquistado. E a disciplina do pensamento é um exercício moral indispensável para que a escuta das leis divinas que ecoam no Espírito se torne cada vez mais nítida e a sua luz impregne nosso ser por meio da integração harmoniosa entre a consciência, o pensamento e a ação. Assim, o Espírito se derramará efetivamente sobre toda a carne.

 

 

Fonte: Do blog: O Espirito e o Tempo – Rafael Meneses

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2 respostas para Disciplina do pensamento

  1. beatrizlopes8 disse:

    Adorei o artigo!!!! Muito Bom!!:). Muito agradecida!

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