Os Desafios do Espiritismo no Século XXI – Parte I

10409460_534853273291069_7744580044825240318_nEstamos iniciando a segunda década do século XXI. São momentos conturbados, processo intenso e extenso de renovação. Renovação de mentalidade, de saberes, de conhecimentos, de tecnologias, em velocidades espantosas. Segundo pesquisadores americanos, a velocidade do conhecimento é tão espantosa, que em 2020, a renovação dar-se-á a cada 72 dias. Se isso se confirmar, a cada três meses teremos nossos conhecimentos obsoletizados. Apesar da tecnologia da informação “apurar”, por assim dizer, nossa capacidade de processamento e armazenamento de informações, ainda ficamos frequentemente para traz. É uma maratona interminável.

Então, o que fazer diante de tamanha decalagem? Penso que o problema central encontra-se em nós mesmos, ou seja, o edifício lógico-axiológico mecanicista que herdamos para processar informações e, assim, compreender o mundo, o outro e a nós mesmos, exauriu-se enquanto instrumento de apreensão da realidade. Metade da produção dos países desenvolvidos advém de conhecimentos produzidos pela física quântica. Portanto, são tecnologias que se movem à velocidade da luz. Mas, nossa mentalidade ainda encontra-se no ritmo das máquinas da segunda revolução industrial. É como uma carroça de tração animal tentando acompanhar um automóvel contemporâneo. E como “acelerar” nossa compreensão? Penso que é com o rompimento dos paradigmas mecanicistas e a renovação do pensamento pelos paradigmas da complexidade. Esta é a grande dificuldade, qual seja atualizar o edifício lógico-axiológico, desconstruindo os padrões antigos e substituindo-os pelo pensamento complexo. A origem latina do termo é complexus, aquilo que é tecido junto. É preciso, portanto, aprender a olhar, ver e enxergar a realidade em conjunto e em movimento. Tarefa nada fácil, pois aprendemos a decompor o mundo em partes, a exemplo de um relógio desmontável, para compreendê-lo. Relembrá-lo é o grande desafío.

E onde entra o espiritismo nesta história? Primeiro, pela necessária atualização permanente do conhecimento espírita; segundo, pela necessária permanente crítica do discurso espírita. Como todo conhecimento se biodegrada, a renovação permanente é um imperativo. A obsoletização dos conhecimentos e práticas espíritas tem levado os Centros Espíritas a crises devastadoras. A maioria não têm respostas para os dramas contemporâneos. Por exemplo, o poder judiciário brasileiro, antecipando-se ao legislativo, em face da sua proverbial intempestividade, está regulamentando a união estável entre pessoas do mesmo sexo. Essa é uma tendência mundial e, no meu entendimento, vem ao encontro da necessária renovação da mentalidade que se avizinha. O que os espiritistas têm a dizer sobre isso? Será que continuarão a dizer que uma pessoa que se sente atraída por parceiros do mesmo sexo é problema de vidas passadas. Em outras palavras, se uma mulher gosta de outra mulher é porque foi homem em outra reencarnação, como já ouvi afirmarem, com veemência, por aí? Se continuar assim, é grave. Esse é o efeito devastador da obsolescência que me referi acima.

Tudo passa pela mentalidade. Ela é o núcleo da cultura que não se mostra, mas se revela nas práticas cotidianas. Vamos pensar sobre isso.
Como dissemos anteriormente, a velocidade atual de renovação do conhecimento revela-se cada vez mais espantosa. Parece-nos, às vezes, inalcançável e desanimadora. Mas entendo que é pela renovação do pensamento, aprendendo a pensar pela complexidade, que sincronizaremos a velocidade mental com a do conhecimento.

Essa revolução viabilizou-se em virtude de, entre outras coisas, o advento da tecnologia da informação e das telecomunicações. A junção destes dois avanços abriu novos horizontes para a humanidade. O grande desafio, agora, é torná-los acessíveis ao maior número de pessoas e, se possível, a todos.

Dentre os desdobramentos mais importantes dessa revolução temos o aumento significativo das liberdades individuais e, portanto, o empoderamento do indivíduo. O computador e o smartphone alteraram, significativamente, a correlação de forças no mundo. As redes sociais, por exemplo, que surgiram nos últimos dez anos, permitiram o acesso e a troca de informações como nunca antes. Há dez anos, seria inimaginável e impensável o que temos hoje. E o que teremos na próxima década? Teletransporte, talvez.

Recentemente, assistimos atônitos à chamada “primavera árabe”. Depois da autoimolação daquele indivíduo na Tunísia a revolução árabe espalhou-se pelo Oriente Médio em questão de dias. Tudo pelas redes sociais. Aos poucos, velhos ditadores, há anos encastelados no poder de seus países, caíram como castelos de areia.

Outro exemplo. Há 15 anos, se precisássemos buscar informações para uma pesquisa qualquer teríamos que nos deslocar, fisicamente, até uma biblioteca ou, no limite, escrevermos para centros de documentação fora da cidade ou, até mesmo, do país. Isso limitava muito nosso raio de ação e acesso à informação, demandando vários dias e até meses. Cada intermediário entre o pesquisador e a fonte de informação subtraia uma parcela de poder do indivíduo. Éramos, por assim dizer, subordinados à boa vontade de terceiros. Quanto maior o número destes, maior a subordinação daquele. Hoje, com um simples clique no mouse acessamos quase a totalidade das informações de que precisamos.

Portanto, estamos mais poderosos como sujeitos, mas não aprendemos, ainda, a utilizar esse poder. Mais poder, maior responsabilidade.

Como espírita o que temos a dizer sobre isso? Em que direção caminhamos, em face dessas intensas e extensas transformações. Isso nos levará a uma maior espiritualização, pois, a cada descoberta, invenção ou inovação, aumentamos gradativamente nosso domínio de espaço, de tal forma que tudo está a tornar-se presente, instantâneo, atemporal e transespacial?

Vejam quantos desafios temos pela frente. Não podemos mais ficar requentando idéias e entendimentos fora do contexto contemporâneo. Temos que romper com o datado.

continuamos…

 

Texto: Rui Simon Paz. Sociólogo, professor acadêmico na Faculdade Doutor Leocádio Correia e coordenador de grupos de estudos espíritas.

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