Os Desafios do Espiritismo no Século XXI – Parte II

10714249_614757298633999_2939232691097246427_oA trajetória evolutiva do espírito sugere como tudo parece indicar uma caminhada inexorável na direção da gradativa autonomia do indivíduo, para que alcance sua singularidade. Nos primórdios da humanidade, os indivíduos se pareciam muito em quase tudo que faziam; todos sabiam realizar as mesmas tarefas, os homens caçavam, as mulheres cuidavam da prole, indistintamente. Com o passar do tempo, as sociedades foram se diversificando e a divisão do trabalho tornou-se mais intensa e extensa. Do clã, passou para as fratrias, para as tribos, para as nações, até chegar às sociedades contemporâneas. Nessa trajetória, o que mais se evidenciou foi a diversidade dos indivíduos. Parece-nos ser esse o sentido da existência. Sentido não é destino, mas é direção.

Como já afirmamos anteriormente, as novas tecnologias têm auxiliado sobremaneira esse desiderato. Cada vez mais tornamo-nos autônomos, com graus de liberdades individuais surpreendentes. Mas, paradoxalmente, nossa autonomia nos remete, também cada vez mais, para uma dependência inextricável do outro. É a relação conjuntiva autonomia-dependência que se revela. O sociólogo Émile Dürkheim dizia que, nas sociedades primitivas, a solidariedade era mecânica, pois se sustentava nas semelhanças; nas sociedades contemporâneas, a solidariedade tornou-se orgânica, alicerçada nas diferenças. Vamos imaginar, a título de exercício reflexivo, se precisássemos elaborar, individualmente, todos os utensílios, instrumentos, artefatos, etc., necessários ao nosso dia-a-dia, quanto tempo demandaríamos para tanto? Inimaginável, não é? No entanto, enquanto escrevo essas poucas linhas, milhares de pessoas trabalham para que eu possa torná-las realidade. Alguém cuida do sistema elétrico que alimenta meu computador, outros zelam pela qualidade da água necessária à vida, outros limpam a ruas, alguns cuidam da segurança de todos. Enfim, é um número inimaginável de atividades que se realizam por pessoas anônimas que, talvez, nunca iremos conhecer. Assim, todos esses instrumentos, instruções, conhecimentos aumentaram nosso raio de ação, portanto, nossa liberdade de ser, ir, vir, permanecer. No entanto, ela não seria possível sem o concurso do outro.

Essa constatação nos remete a uma nova compreensão do ser humano. Quanto maior a autonomia, maior a dependência. Portanto, a solidariedade necessária cada vez mais clama pela convivência fraterna. Por isso, talvez, neste século possamos completar o ciclo iniciado pela Revolução Francesa: no século XIX, a humanidade alcançou a liberdade, todos os regimes escravocratas foram abolidos; no século XX, erigiu-se a igualdade de todos perante a lei. Mas, a fraternidade continua sendo uma paisagem no horizonte da evolução do espírito. Acredito, portanto, que o reconhecimento do outro como igual a mim em substância e essencialmente diferente pela sua singularidade poderá dissipar a névoa que turva ainda nossa visão do outro. É preciso reconhecer que há uma unidade fundamental na diversidade de todos os seres.

Esse é mais um desafio para nós todos, espíritas ou não, neste século que se inicia.
A história da humanidade sempre se pautou por três grandes pilares. O primeiro, como vemos o mundo. Qual a concepção, a percepção e a consciência que temos sobre o que nos envolve, no imediato e no mediato, aqui na Terra. O segundo, como vemos o outro. Como concebemos o ser humano, qual o significado da existência humana, o que cabe a cada um de nós. E, terceiro, como vemos a nós mesmos. Onde nos localizamos no mundo em face dos outros, de onde viemos, para onde vamos quem somos nós. Essas indagações nos acompanham desde o princípio, seja este qual for.

Diante dessas mentalidades históricas, erigimos teorias tácitas sobre tudo, inclusive sobre o homem. Por exemplo, na antiguidade clássica era comum as famílias manterem escravos domésticos, normalmente arrebatados em guerras de conquistas. Por trás dessa tolerância, por assim dizer, havia uma visão de pessoa, de ser humano: os vencidos eram vistos como trunfos e despojos de guerra. Portanto, era direito dos vencedores usá-los como bem o entendessem. Com a chamada revolução copernicana, a partir do século XV, o cartesianismo estabeleceu novos parâmetros sobre o ser humano. Primeiro, colocou-o ao nível dos demais objetos de investigação; segundo, separou o sujeito cognoscente (res cogitans) dos objetos cognoscíveis (res extensa), destinando à verdade um lugar fora do sujeito. Com efeito, a pessoas começaram a julgar-se detentoras de verdades absolutas, pois acreditavam terem-nas encontrado primeiro.

Se, por um lado, tivemos os grandes avanços científicos e tecnológicos oriundos do mecanicismo, por outro, a concepção do homem máquina assim estabelecida fomentou os regimes totalitários e as grandes guerras que assolaram a Humanidade no século passado.

Como disse um certo filósofo, certos sujeitos, auto ungidos de salvadores passaram a ter, desgraçadamente, absoluta certeza que estavam certos. Vide Hitler, Stalin, Mao Tse-Tung, dentre outros. Mais de 180 milhões de mortos somente nas guerras entre nações e revoluções, durante o século XX. Afinal, sendo máquinas, somos passíveis de substituição, descarte ou moldagem. Infelizmente, essa é a concepção de mundo, do outro e de nós mesmos herdada no ocidente e que orienta ainda nossas consciências.

O grande desafio do século XXI será superar essa visão de homem pela concepção de indivíduo, dotado de um singularidade irredutível, ou seja, que não se reduz ao outro, às ideologias, aos regimes políticos. Cada um é cada um e, na sua singularidade, detém habilidades, talentos e vocações únicas, porém semelhantes aos outros seres. Mas, no reconhecimento dessa diversidade alcançaremos a unidade fundamental que une a todos, percebendo a complementaridade solidária das diferenças. Assim, poderemos afirmar em alto e bom som: nada é maior que o ser humano, nenhum partido político, nenhuma filosofia e nem, tampouco, qualquer religião. Todos são importantes e necessários, porque insubstituíveis na sua singularidade. Portanto, não haverá mais pena de morte, eutanásia, abortos, etc.

 

Texto: Rui Simon Paz. Sociólogo, professor acadêmico na Faculdade Doutor Leocádio Correia e coordenador de grupos de estudos espíritas.

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