Reflexões sobre a Lucidez

surreal

Hoje posso saber, com mais intensidade e sofreguidão, o que significa o apagar-se do Espírito em meio ao turbilhão material. Vi surgir no peito sentimentos acalentadores que funcionavam como alavancas do pensamento, fazendo-o conceber ideias e conceitos muito nítidos. Mas há uma espécie de gravidade espiritual, uma atração de nossa realidade inferior, que muito pertinaz e lentamente vai aniquilando esses desajustados voos do Espírito.

Por outro lado, já ficou bem clara uma coisa: que a luta pelo cultivo da lucidez no fustigante seio da carne implica mesmo esse acender e apagar do Espírito, essa espécie de semi-advento de uma consciência mais elevada, mais límpida, cujo destino consiste em reger a totalidade do ser no tempo e na realização da transcendência.

A melancolia do ser nasce das entranhas dessa luta, pois ele só quer ser beleza, harmonia, vida, intensidade e gesto sublime de adoração ao Absoluto, na plenitude de suas possibilidades, no máximo de sua natureza; o ser no tempo aspira a dominar e ultrapassar a sua própria finitude, mergulhando-a na infinitude da existência divina. Essa melancolia, que nada se compara a famigerada depressão contemporânea, é como um templo sacrossanto que resguarda o ser quando a noite do Espírito sobrevêm e se faz longa. Essa dor pungente no peito se faz guardiã da consciência, para que o ser encarcerado na carne não se demore demasiadamente nos delírios e nos prazeres.

Como é santa essa dor da alma, como protege, como convoca à meditação, como invoca à experiência do silêncio originário! Definitivamente, a melancolia, tal como a concebemos aqui, é um estado existencial realmente necessário para o cultivo da lucidez. E de fato, ela não é de modo algum oposta à alegria de uma peleja moral bem travada, porfiada, ininterrupta; mas sim à euforia, ao embasbacamento e ao entretenimento enervante.

Hoje percebo, como fruto de difíceis experiências e não apenas da reflexão, como os prazeres ligados à vida terrena, tipicamente medíocre (mediana), oriundos das necessidades naturais de nutrição, reprodução e repouso, são essencialmente absorventes, capturando o Espírito no fluxo inexorável da vida sensível.

A estrutura da vida sensível está baseada no binômio dor/prazer, ambos são estímulos à ação do Espírito, seja para evitar a dor ou provocar prazer. A problemática se estabelece na relação com a matéria quando as forças do Espírito são exclusivas e declaradamente aplicadas para se evitar a dor sensível o máximo que possível e provocar prazer sensível também o máximo possível.

Em última instância, a inteligência, em nossa civilização, está a serviço da exploração da vida material, para se obter o máximo de prazer que ela pode oferecer. A necessidade de nutrição não é educada para um sentido espiritual, transmutando-a lentamente para uma exigência muito mais sutil, mas sim exagerada e infantilmente valorizada pelos caprichos da gastronomia e banalizada nos rodízios infernais, nas infindáveis festinhas e etc; isso para não dizer sobre o sexo e o repouso.

Tudo isso pode parecer simples, mas essas três exigências – nutrição, reprodução e repouso – estão na base da vida biológica, constitui o cerne de uma vida encarnada, e o atual projeto civilizatório só tende a exagerá-las, capturando e materializando o Espírito na voragem da vida sensível.

Desse modo, nesse espaço absorvente da vida social, onde a potência material é constantemente revigorada, é forçoso que o Espírito se apague e a noite sobrevenha. De outro modo, disciplinar o corpo, sem os caracteres mórbidos de um ascetismo envelhecido, reduzir ao efetivamente necessário as exigências da vida material, é um dos meios de amenizar o poderoso impacto das forças absorventes da matéria sobre a consciência. Assim se estabelece os alicerces para o advento da Lucidez.

 

 

Autor: Rafael Meneses (blog:O Espirito e o Tempo)

Anúncios
Esse post foi publicado em Reflexões, Sem categoria e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s